15
de
janeiro
Micro-conto

Perguntaram-lhe o porquê dos olhos vermelhos e ela simplesmente disse:
"Bebi um líquido salgado que escorreu dos meus olhos e entrou em minha boca".
por Sara Regina

Perguntaram-lhe o porquê dos olhos vermelhos e ela simplesmente disse:
"Bebi um líquido salgado que escorreu dos meus olhos e entrou em minha boca".
por Sara Regina

Por Sara Regina
A noite transcorria tranqüila na delegacia. Dois policiais folgados jogavam baralho, um deles com as pernas sobre o birô. Eles conversavam animados:
- Cara, você não vai acreditar – disse um policial. – Minha mulher descobriu onde eu guardo as minhas playboys.
- Iiiiiih, pegasse a promoção.
- Nem me fale. Eu só faltei me jogar de joelhos aos pés dela pra ela não rasgar a playboy da garota melancia, mas teve o efeito contrário. Ao invés dela poupar a garota melancia, foi a que ela rasgou com mais gosto. Ela rasgou em pedaços tão pequenos que nem deu pra colar com durex.
O outro policial riu.
- É, meu chapa, agora só quando a garota melancia posar nua de novo.
Um estrondo. A porta bateu com força na parede, havia sido chutada. Os policiais voltaram-se para a porta.
Um bando de caras encapuzados, de armas em punho, entraram na delegacia.
- Parados aí! Entreguem suas armas! – ordenou o líder do bando. Os policiais jogaram suas armas aos pés do bandido. Seus comparsas as apanharam. – Bons meninos… Agora me entreguem tudo que tiverem: relógio, celular, dinheiro. – Os policias o fitaram sem ação. – Rápido! Eu não tenho a noite toda!
Um dos policias jogou-se aos pés do bandido e agarrou sua perna implorando:
- Por favor, não me roube. Eu tenho três famílias pra sustentar. Tenho três bebês, fora as crianças maiores. Leite Ninho está uma fortuna! E a conta de luz, então! A mulher, a oficial, só quer dormir com o ar-condicionado ligado, e as crianças é no videogame e no computador o dia inteiro. Meu salário não dá nem pra farrar de vez em quando!
- Eu não tenho nada a ver com sua vida, cara! Larga a minha perna!
- Por favor, tenha misericórdia!
- O Gavião não tem piedade de ninguém. Agora largue a minha perna antes que eu estoure seus miolos! – O policial, trêmulo, largou a perna do Gavião e pôs-se de pé. – Vamos! Celular, dinheiro, relógio! Quero tudo de valor que tiver nessa joça! – Os policiais entregaram seus pertences enquanto os comparsas do Gavião vasculhavam a delegacia atrás de objetos de valor.
- Pronto. Agora o senhor já tem tudo o quer – disse o policial que ficara calado todo o tempo.
O Gavião olhou para ele com um olhar de lado, o rosto na posição 3/4.
- Não. Ainda não. Rapazes, peguem os dois! – Seus comparsas puxaram os braços dos policiais para trás e, segurando seus punhos, apontaram uma arma para suas cabeças.
- O que você vai fazer conosco? – perguntou o policial adúltero e medroso.
- Você verá. Rapazes, me sigam.
Eles entraram por um corredor que levava às selas. Defronte a uma sela vazia, o Gavião conferiu se os policias tinham uma cópia das chaves das selas, e depois os policiais foram jogados dentro da sela tal qual dois sacos de batata.
- Vocês vão dormir aí essa noite. Fiquem à vontade e não deixem de ver o sol nascer quadrado. É uma visão inesquecível! – disse o Gavião com sarcasmo.
- Você não pode fazer isso! – o policial agarrou-se a grade.
- Já fiz. Tenham uma ótima noite! – Gavião deu as costas e foi embora.
Qual não foi a surpresa do delegado ao acordar pela manhã (ele passara a noite toda dormindo em sua sala) e ver os dois policiais dentro de uma sela. E qual não foi a vergonha que os referidos policiais, bem como os outros membros da corporação, sentiram ao ver em todos os jornais a notícia de que dois policiais haviam sido assaltados e encarcerados e haviam sido totalmente passivos, não fizeram nada para impedir a ação dos bandidos e um dos jornais ainda disse que o bando ainda tinha sido bonzinho ao trancafiá-los numa sela vazia.
Este é o Brasil. Só podia ser no Brasil!
História baseada num fato real.

Por Sara Regina
O escritor calou-se, deixou cair a caneta bico de pena sobre o papel. Automaticamente perguntou, não sabia bem a quem, se ao vento que entrava naquele momento pela janela, se à gueixa ou a ele mesmo: “Mas como as suas lágrimas se vão comigo?”. A caneta, ficando de pé, escreveu no papel o seguinte: “Você me deu um amor”. Assustado com o momento de vitalidade que a caneta acabara de viver, o escritor leu o que tinha escrito até então.
A gueixa olhava as cerejeiras em flor da janela de seu quarto. Estava pronta para mais uma apresentação. Faltava apenas alguns minutos para descer e ir entreter os cavalheiros. Seu desejo mais íntimo, velado para outrem, era estar sob uma daquelas cerejeiras em flor com alguém que a amasse com suas inseguranças e medos, como o casal que ela via da janela.
Alguém veio chamá-la e ela desfez-se de seus sonhos. Os cavalheiros queriam vê-la esbelta e com o semblante resplandecendo alegria. Só podia sofrer abertamente em suas horas de descanso. Durante a apresentação, só podia mostrar alegria, não importando se fosse falsa ou não – bastava ser convincente.
Subindo ao palco, a gueixa soltou seu canto de sereia, tinha uma voz suave e melodiosa. Dançava com sensualidade, em movimentos delicados e femininos.
Um cavalheiro em especial olhava-a com um olhar diferente do olhar dos demais. Ele olhava-a na alma, jogava-se pela janela de sua alma: seus olhos. A gueixa percebeu seu olhar penetrante, a circunstância, entretanto, impedia-lhe de dar atenção a apenas um cavalheiro.
Ao final da apresentação, a gueixa subiu novamente ao quarto que lhe servia de camarim. Sentou-se diante da penteadeira e começou a retirar a maquiagem. A porta foi aberta lentamente, o que fez ecoar no ar um barulhinho. O cavalheiro que a olhara com outros olhos estava ali, parado na porta, olhando-a com o mesmo olhar singelo e terno.
A gueixa pediu que se retirasse. O conhecia de outros tempos, de um passado em vias de ser esquecido. Ele continuou parado na porta, baixava a cabeça e levantava, algo engasgado queria sair. Ela insistia para que ele saísse. Ela levantou-se, tencionava fechar a porta, deixá-lo parado diante da porta fechada. Ele falou-lhe no último minuto, se não fosse naquele momento, perderia a coragem de tentar em outra ocasião: “Perdoe-me. Perdoe-me por ter sido um covarde. Suas palavras me assustaram, por isso não disse o que realmente sentia. Eu a amo”. A gueixa deixou escorrer uma lágrima por sua face ainda branca do pó de arroz. Ele a abraçou e beijou-a.
O escritor pegou sua caneta e escreveu no papel: “Este amor sempre foi seu, eu apenas o revelei aos seus olhos e ao seu coração”. A caneta não mais mexeu-se sozinha, mas em seu coração o escritor sentiu a felicidade da gueixa.

Por Sara Regina
Os olhos cerram por alguns segundos.
Tudo parece distante do mundo, alheio ao seu mundo.
Os pêlos levantam-se deixando os poros visíveis.
A pele enrubesce, enrijece.
As pernas tremulam, mas continuam de pé.
As mãos tremem hesitantes ao menor contato.
Outras, entretanto, são mais afoitas, tocam sem medo.
O corpo esquenta, sua.
A endorfina aumenta a cada minuto.
O calor sobe, passando pela barriga,
Acelerando o coração, chegando por fim à boca.
Os lábios estão encaixados, colados.
Os corpos se aproximam ainda mais,
Apenas a blusa dela separa pele de pele.
Ele é só dela e ela só dele..
O beijo acelera, deixando-os eufóricos, excitados.
As mãos, antes inibidas, desconcertadas,
Agora tocam, apalpam, apertam.
A paixão é intensa, desregrada.
É o beijo dos amantes.

Capitão Nascimento já foi Magali
Por Sara Regina
Capitão Nascimento está comandando a tropa de elite em uma missão muito arriscada na favela da roçinha quando seu celular toca. Ele esbraveja contra o celular e continua escondido. Alguém da tropa pede para ele atender o celular antes que os bandidos o ouçam e os encontrem. Então o Capitão Nascimento pega o celular no bolso.
- Alô? Fala logo que eu tô ocupado.
- Oi, meu amor. Sou eu, Alex. Lembra de mim?
- Amor?! Eu sou espada!
- Magali, meu amor, você esqueceu de mim?
- Que Magali! Eu sou o Capitão Nascimento!
- Não acredito que você me esqueceu em três anos.
- Alex, né? Eu nem te conheço, Alex! – Capitão Nascimento desliga na cara de Alex.
Ao chegar em casa, Capitão Nascimento abre a porta de seu armário e lá no fundo pega uma caixa. Observa as roupas, os sapatos e a peruca castanha encaracolada. Lembra-se dos amigos daquela época.
- Edu, Fred, Beto, Alex, tenho saudade de vocês. – Uma lágrima escorre. Barulho de botas se aproximando o fazem conter o choro. Ele esconde novamente a caixa no armário.
- Capitão – um soldado entra no quarto.
- O que foi, soldado?
- Tem um cara lá embaixo dizendo que quer falar com o senhor de qualquer jeito.
- Quem é?
- Ele disse que se chama Alex.
- Alex?
- Isso, senhor. Posso deixar entrar?
- Deixe.
- Ok, senhor. – O soldado se retira.
- Recordar é viver – sussurra Capitão Nascimento. Novamente ele tira a caixa do armário. Arruma-se de Magali e espera sentado na cama de pernas cruzadas.
A porta se abre. Alex entra no quarto, afoito.
- Magali, meu amor!
- Alex – ela vira o rosto delicadamente.
- Que saudade, Magali!
- Eu também, Alex.
No dia seguinte, Capitão Nascimento abaixa-se para pegar o jornal na porta e eis que na primeira página:
A Magali do Programa Sexo Frágil
É o Capitão Nascimento
- Quem foi o filho da mãe? PEDE PRA SAIR! PEDE PRA SAIR! – Ele sacode o jornal.
Capitão Nascimento liga para a Tropa de Elite dizendo que está muito doente e não poderá ir trabalhar.
Deita-se na cama com uma bolsa de água na cabeça e um termômetro na boca, todo enrolado.
Alguns soldados vão visitá-lo.
- Capitão, o que o senhor tem?
- Deve ser virose.
- Será que não é dengue?
- Pode ser. Aquelas ruas da roçinha tem tanto buraco.
Um dos soldados encontra o jornal no criado-mudo e pede pra ver o caderno de esportes.
- Não! – exclama Capitão Nascimento.
- Por que? É rapidinho.
Capitão Nascimento começa a suar frio.
- Capitão, o senhor tá mal. Tá até suando.
- Deve ser a febre – ele disfarça.
O soldado se choca ao ver a manchete da primeira página.
- Capitão, por que não nos disse?
- Dizer o quê, soldado?
- Que o senhor era a Magali daquele programa Sexo Frágil.
- Não gosto de falar da minha vida particular.
- Ai, Magali!!! – diz outro soldado.
Capitão Nascimento fica irado com a gracinha e esbraveja:
- PEDE PRA SAIR, SOLDADO! PEDE PRA SAIR!
- Vou sair, capitão.
- E você, o que tá olhando?
Os dois soldados saem na carreira.
Capitão Nascimento pega o celular. Procura Wagner Moura na agenda e liga para ele.
- Você viu o jornal de hoje?
- Não. O que tem?
- Eu sou a manchete da primeira página!
- Que bom, Capitão Nascimento.
- Bom? Estão dizendo que eu era a Magali do Sexo Frágil! Onde vai ficar a minha reputação de capitão da polícia militar?! E a culpa é sua!!! Por que você foi interpretar a Magali?
- Eu adorava fazer a Magali.
- Pior que eu também. – Capitão Nascimento chora.
Vamos estrear o Sara-Coteia com este conto. Aposto que muitas mulheres gostariam de dizer algumas destas opiniões e exigências nos sites de relacionamento.

Perfil Extra Sincero
por Sara Regina
Meu nome é Adelaide, tenho 35 anos. Meus cabelos são… de que cor mesmo?… nem sei, já pintei de tantas cores diferentes. Logo que nasci era loiro, depois ficou preto; na adolescência pintei de roxo, azul, rosa e verde néon; agora acho que está castanho com mechas loiras. Sou uma sanfona: uma hora emagreço, outra engordo. Meus olhos são castanhos. Minha altura, depende. Quando estou de salto, meço 1,77; quando não, meço 1,65.
Tem dias que me enfeito toda, pareço uma patricinha. Já em outros dias me abandono totalmente, ficando pior do que um mendigo. Tem dias que nem banho tomo.
Festas comigo nem pagando. Bom, pensando melhor, se pagar bem, eu vou. Você nunca vai me ver numa boate ou numa rave, odeio aquela barulheira que você não consegue distinguir uma bexiga de uma palavra da outra. Bar eu posso até ir, desde que a música ao vivo não seja muito alta. Nem me chame para micaretas. Não quero estourar meus tímpanos nem quero beijar a saliva de não sei quantas que vieram antes de mim.
Outra coisa: odeio cigarro!!! Então se você for fumante, fique bem longe de mim. No máximo poderemos trocar e-mails e telefonemas. Não suporto cheiro de cigarro.
Se quiser sair comigo, é só comigo. Nem cogite a possibilidade de me pedir para chamar uma amiga para sair com um amigo seu. Eu gosto de exclusividade. Não quero dar uns amassos com ninguém me olhando não. E também vou logo avisando: nem se anime muito porque você não vai me levar para cama na primeira noite, nem na segunda, nem na décima. São pelo menos três meses de namoro antes de partir para os finalmente! Saia de casa já controlando suas bolas, porque vai demorar para o gol sair.
Mais uma coisa: você pode beber a bebida alcoólica que quiser, menos cana. Odeio o cheiro de cana!
Se começarmos a ficar, não vou ligar para você, só se for imprescindível, para depois você não ficar dizendo que sou grudenta. Também não quero que fique me ligando nem dizendo que me ama o tempo todo, homem meloso é muito chato.
Eu quero um namorado amigo, companheiro, carinhoso, sincero, engraçado, mas não palhaço, fiel… Sim! Por falar nisso, saiba que o único homem que ousou me trair, hoje não pode mais fazer aquilo, pois não tem mais seu instrumento, e ainda ganhou de bônus uma cicatriz em seu gogó!
Bom, acho que já terminei.
Se quiser me conhecer melhor, me mande um e-mail.