Sara-Coteia

O mundo dos contos de Sara Regina

9

de
novembro

Até os Policiais

Por Sara Regina

A noite transcorria tranqüila na delegacia. Dois policiais folgados jogavam baralho, um deles com as pernas sobre o birô. Eles conversavam animados:
- Cara, você não vai acreditar – disse um policial. – Minha mulher descobriu onde eu guardo as minhas playboys.
- Iiiiiih, pegasse a promoção.
- Nem me fale. Eu só faltei me jogar de joelhos aos pés dela pra ela não rasgar a playboy da garota melancia, mas teve o efeito contrário. Ao invés dela poupar a garota melancia, foi a que ela rasgou com mais gosto. Ela rasgou em pedaços tão pequenos que nem deu pra colar com durex.
O outro policial riu.
- É, meu chapa, agora só quando a garota melancia posar nua de novo.
Um estrondo. A porta bateu com força na parede, havia sido chutada. Os policiais voltaram-se para a porta.
Um bando de caras encapuzados, de armas em punho, entraram na delegacia.
- Parados aí! Entreguem suas armas! – ordenou o líder do bando. Os policiais jogaram suas armas aos pés do bandido. Seus comparsas as apanharam. – Bons meninos… Agora me entreguem tudo que tiverem: relógio, celular, dinheiro. – Os policias o fitaram sem ação. – Rápido! Eu não tenho a noite toda!
Um dos policias jogou-se aos pés do bandido e agarrou sua perna implorando:
- Por favor, não me roube. Eu tenho três famílias pra sustentar. Tenho três bebês, fora as crianças maiores. Leite Ninho está uma fortuna! E a conta de luz, então! A mulher, a oficial, só quer dormir com o ar-condicionado ligado, e as crianças é no videogame e no computador o dia inteiro. Meu salário não dá nem pra farrar de vez em quando!
- Eu não tenho nada a ver com sua vida, cara! Larga a minha perna!
- Por favor, tenha misericórdia!
- O Gavião não tem piedade de ninguém. Agora largue a minha perna antes que eu estoure seus miolos! – O policial, trêmulo, largou a perna do Gavião e pôs-se de pé. – Vamos! Celular, dinheiro, relógio! Quero tudo de valor que tiver nessa joça! – Os policiais entregaram seus pertences enquanto os comparsas do Gavião vasculhavam a delegacia atrás de objetos de valor.
- Pronto. Agora o senhor já tem tudo o quer – disse o policial que ficara calado todo o tempo.
O Gavião olhou para ele com um olhar de lado, o rosto na posição 3/4.
- Não. Ainda não. Rapazes, peguem os dois! – Seus comparsas puxaram os braços dos policiais para trás e, segurando seus punhos, apontaram uma arma para suas cabeças.
- O que você vai fazer conosco? – perguntou o policial adúltero e medroso.
- Você verá. Rapazes, me sigam.
Eles entraram por um corredor que levava às selas. Defronte a uma sela vazia, o Gavião conferiu se os policias tinham uma cópia das chaves das selas, e depois os policiais foram jogados dentro da sela tal qual dois sacos de batata.
- Vocês vão dormir aí essa noite. Fiquem à vontade e não deixem de ver o sol nascer quadrado. É uma visão inesquecível! – disse o Gavião com sarcasmo.
- Você não pode fazer isso! – o policial agarrou-se a grade.
- Já fiz. Tenham uma ótima noite! – Gavião deu as costas e foi embora.
Qual não foi a surpresa do delegado ao acordar pela manhã (ele passara a noite toda dormindo em sua sala) e ver os dois policiais dentro de uma sela. E qual não foi a vergonha que os referidos policiais, bem como os outros membros da corporação, sentiram ao ver em todos os jornais a notícia de que dois policiais haviam sido assaltados e encarcerados e haviam sido totalmente passivos, não fizeram nada para impedir a ação dos bandidos e um dos jornais ainda disse que o bando ainda tinha sido bonzinho ao trancafiá-los numa sela vazia.
Este é o Brasil. Só podia ser no Brasil!

 

História baseada num fato real.

7

de
novembro

Lágrimas que se vão

 

Por Sara Regina

 

O escritor calou-se, deixou cair a caneta bico de pena sobre o papel. Automaticamente perguntou, não sabia bem a quem, se ao vento que entrava naquele momento pela janela, se à gueixa ou a ele mesmo: “Mas como as suas lágrimas se vão comigo?”. A caneta, ficando de pé, escreveu no papel o seguinte: “Você me deu um amor”. Assustado com o momento de vitalidade que a caneta acabara de viver, o escritor leu o que tinha escrito até então.

A gueixa olhava as cerejeiras em flor da janela de seu quarto. Estava pronta para mais uma apresentação. Faltava apenas alguns minutos para descer e ir entreter os cavalheiros. Seu desejo mais íntimo, velado para outrem, era estar sob uma daquelas cerejeiras em flor com alguém que a amasse com suas inseguranças e medos, como o casal que ela via da janela.
Alguém veio chamá-la e ela desfez-se de seus sonhos. Os cavalheiros queriam vê-la esbelta e com o semblante resplandecendo alegria. Só podia sofrer abertamente em suas horas de descanso. Durante a apresentação, só podia mostrar alegria, não importando se fosse falsa ou não – bastava ser convincente.
Subindo ao palco, a gueixa soltou seu canto de sereia, tinha uma voz suave e melodiosa. Dançava com sensualidade, em movimentos delicados e femininos.
Um cavalheiro em especial olhava-a com um olhar diferente do olhar dos demais. Ele olhava-a na alma, jogava-se pela janela de sua alma: seus olhos. A gueixa percebeu seu olhar penetrante, a circunstância, entretanto, impedia-lhe de dar atenção a apenas um cavalheiro.
Ao final da apresentação, a gueixa subiu novamente ao quarto que lhe servia de camarim. Sentou-se diante da penteadeira e começou a retirar a maquiagem. A porta foi aberta lentamente, o que fez ecoar no ar um barulhinho. O cavalheiro que a olhara com outros olhos estava ali, parado na porta, olhando-a com o mesmo olhar singelo e terno.
A gueixa pediu que se retirasse. O conhecia de outros tempos, de um passado em vias de ser esquecido. Ele continuou parado na porta, baixava a cabeça e levantava, algo engasgado queria sair. Ela insistia para que ele saísse. Ela levantou-se, tencionava fechar a porta, deixá-lo parado diante da porta fechada. Ele falou-lhe no último minuto, se não fosse naquele momento, perderia a coragem de tentar em outra ocasião: “Perdoe-me. Perdoe-me por ter sido um covarde. Suas palavras me assustaram, por isso não disse o que realmente sentia. Eu a amo”. A gueixa deixou escorrer uma lágrima por sua face ainda branca do pó de arroz. Ele a abraçou e beijou-a.

O escritor pegou sua caneta e escreveu no papel: “Este amor sempre foi seu, eu apenas o revelei aos seus olhos e ao seu coração”. A caneta não mais mexeu-se sozinha, mas em seu coração o escritor sentiu a felicidade da gueixa.

6

de
novembro

O Beijo dos Amantes

 

Por Sara Regina

 

Os olhos cerram por alguns segundos.
Tudo parece distante do mundo, alheio ao seu mundo.
Os pêlos levantam-se deixando os poros visíveis.
A pele enrubesce, enrijece.
As pernas tremulam, mas continuam de pé.
As mãos tremem hesitantes ao menor contato.
Outras, entretanto, são mais afoitas, tocam sem medo.
O corpo esquenta, sua.
A endorfina aumenta a cada minuto.
O calor sobe, passando pela barriga,
Acelerando o coração, chegando por fim à boca.
Os lábios estão encaixados, colados.
Os corpos se aproximam ainda mais,
Apenas a blusa dela separa pele de pele.
Ele é só dela e ela só dele..
O beijo acelera, deixando-os eufóricos, excitados.
As mãos, antes inibidas, desconcertadas,
Agora tocam, apalpam, apertam.
A paixão é intensa, desregrada.
É o beijo dos amantes.

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